A Fé é a força da Vida. Se o homem vive é porque acredita nalguma coisa" Léon Tolstoi
  Igreja do Senhor Jesus da Piedade

Encomenda do Bispo de Elvas, e onde ficaria a funcionar a ainda activa Confraria. A igreja é construída em 1737, por iniciativa do Padre Manuel Antunes, onde outrora havia um cruzeiro de madeira assinalando a morte de um lavrador da Torre das Arcas. A cura do próprio pároco e de muitos que se deslocaram ao local criaram um mito acerca deste que rapidamente se alastrou a toda a cidade e às suas redondezas.
O desenho da igreja, pelo elvense João Fernandes, é baseado na traça da ermida de N. Sr.ª da Nazaré, construída em 1592, tendo a obra começado a 17 de Fevereiro de 1737 e estando terminada a 20 de Outubro se fez uma procissão. As peregrinações constantes e os ex-votos dedicados ao Senhor Jesus da Piedade, fizeram com que este fosse conhecido por todo o Alentejo e mesmo na também devota vizinha Espanha.
A igreja viria a ser aumentada entre 1753 e 1779, e surge ainda a necessidade de construção de um parque que acolha aqueles que na romaria de 21 de Setembro vêm visitar o local (a romaria passaria depois para o dia 20). Apesar da festa de S. Mateus ser a principal festividade, o ciclo de cerimónias na Igreja do Senhor Jesus da Piedade comportava três festas: N. Sr.ª da Graça (26 de Maio), S. Pedro (29 de Junho) e S. Mateus (20 a 22 de Setembro).

Se em 1860 começa a construção de uma estrada que ligava a igreja à cidade, a 6 de Janeiro de 1864 Cristóvão de
Vasconcellos de Azevedo e Silva oferece o campo em frente à igreja para a construção do Parque da Piedade. Acerca da construção do Parque da Piedade diz-nos Eurico Gama que “o desenvolvimento do recinto dá-se, sobretudo, a partir de 1864, coroando a abertura da estrada dos Arcos à Piedade, em que se iniciam novas e prometedoras obras: fez-se em todo o comprimento da horta do Botelhão o muro que a separa da estrada, com cómodos assentos desde o casal dela até o terreiro de detrás da Igreja; alargou-se o acanhado espaço que mediava entre a Igreja e o olival sobranceiro, construindo-lhe o polígono de parede que subsiste pelo lado meridional (e antes tinha também assentos), em cuja parte superior foi posto um gradeamento de uns 120 metros, encomendado em 1 de Maio de 1868; transformou-se (…) o ferragial do sr. Cristóvão de Vasconcellos, depois Visconde de Mariares, num agradável Jardim que se debruça sobre a estrada, encimando-o de caprichoso gradeamento e adornado de vasos de piteira artificiais colocados nos pilares divisórios, obra concluída.
Apesar de concluída esta obra, no Parque da Piedade as obras seguiriam até 1902 (inauguração a 12 de Setembro) com a construção de um repuxo (1883), de um lago (obra de 1902 feito depois de uma esmola de 1000$000 dada por Manuel das Dores Azinhais) e de um coreto (obra direccionada por Tenório Zagalo em 1889 que custou 677$500). A Avenida da Piedade foi sendo aumentada sucessivamente ao longo dos anos através de donativos em dinheiro e doações de terrenos.
Em 1881 torna-se o jardim da Fonte da Fé (obra de 1831), em frente à igreja, mais acolhedor e vistoso com a construção da referida fonte. Estavam então reunidos os ingredientes para a tradição que ainda hoje continua das festividades do São Mateus. As festividades tiveram sempre uma grandeza imensa, desde cedo com fogo de artifício e com cartazes publicitários pelo menos desde 1871. Aqui se deslocavam muitas famílias em jeito de diversão e se faziam as principais transacções entre os lavradores que procuravam novas alfaias agrícolas. A afluência era tanta que a Companhia Real dos Caminhos de Ferro do Norte e Leste chega a estabelecer bilhetes de ida e volta a preços reduzidos e Domingos Lavadinho, mais tarde, chega a afirmar que “a típica romaria ao Senhor Jesus da Piedade, a que concorrem os povos de muitas e remotas vilas e aldeias, é o acontecimento mais notável do Alto Alentejo, na época luminosa e dionisíaca das prímicias do Outono”.

In Elvas, História Viva
Revista Municipal de Cultura e Património